Luciana Leis
O caso recente dos pais de trigêmeas, no Paraná, que após tratamento para engravidar, e diante do nascimento das trigêmeas, rejeitaram uma das crianças – uma vez que “a intenção do casal era ter somente dois filhos” – nos abre a possibilidade de refletirmos a respeito do real desejo de termos filhos.
Primeiramente, penso ser necessário esclarecer que nem todos os casais que se propõem a ter um filho realmente o desejam, embora, muitas vezes, eles próprios acreditem que sim.
O desejo de ter um filho se relaciona com o fato de querer ter uma criança para cuidar desta, passar experiências, educar, dar e receber afeto... Além disso, esse desejo também está vinculado às nossas necessidades de satisfação narcísica, ou seja, de poder ver na criança nossos traços, desta ser um representante da continuidade de nós mesmos, reafirmação de nossa feminilidade/masculinidade, de podermos corresponder às expectativas de nossos pais que aguardam por um neto, dentre muitas outras razões.
No entanto, quando o desejo de satisfação narcísica, através da criança, se sobressai ao desejo de querer cuidar e conviver com ela, podemos questionar se realmente existe um verdadeiro desejo por um filho, dando a ele um “lugar de pessoa separada” dos desejos de seus pais. Não conheço os pais das trigêmeas, portanto, não tenho como afirmar se realmente eles desejavam ou não ter filhos.
Outra consideração que precisa ser feita, a partir desse acontecimento, é o quanto um casal pode lidar com o fato da maternidade e da paternidade serem “diferentes da forma como eles idealizaram”, e, assim, poderem aceitar essa nova realidade: três bebês, em vez de dois.
Para resolver tais conflitos envolvendo o desejo de ter filhos, o casal poderia ter sido bastante beneficiado com um tratamento psicoterápico, desde o início do tratamento de reprodução assistida. Assim, teriam tido a chance de refletir melhor a respeito da maternidade e da paternidade, bem como sobre as implicações que esses tipos de tratamentos trazem consigo, muitas vezes, esperadas, como também inesperadas.
Considerando-se o exposto até o momento, cada vez mais, é necessário o acompanhamento psicológico do casal que precisa e opta pelos tratamentos de reprodução humana assistida. O suporte psicológico os auxilia a amadurecerem para o papel de pais, ajudando-os a lidarem melhor com acontecimentos que não idealizaram.
Luciana Leis é psicóloga. É especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade.
luciana_leis@hotmail.com