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Academia Brasileira de Neurologia alerta: tratamentos sem comprovação científica e fake news podem matar

A Doença de Alzheimer é atualmente uma das enfermidades mais afetadas pela desinformação da internet, das fake news e dos desvios de maus profissionais que viralizam tratamentos sem comprovação científica. Trata-se de um risco importante aos pacientes, tendo em vista que pesquisa do Google de 2019 revela que 26% dos brasileiros recorrem a buscas on-line quando se deparam com um problema de saúde.

 A verdade é que há milhões de internautas suscetíveis, podendo crer e adotar práticas sem fundamento e pseudo-tratamentos com prejuízos à saúde. A Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência neurodegenerativa, com 1,2 milhão de pessoas diagnosticadas no Brasil e 100 mil novos casos por ano, segundo o Ministério da Saúde, e 50 milhões de pessoas diagnosticadas em todo o planeta, de acordo com a Alzheimer’s Disease International – número que tende a crescer devido ao envelhecimento da população, chegando a 74,7 milhões em 2030 e 131,5 milhões em 2050.

A Academia Brasileira de Neurologia, neste mês de setembro em que se celebra o Dia Mundial da Doença de Alzheimer e Dia Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer, mais uma vez vem a público para cumprir sua missão de alerta os cidadãos e as autoridades sobre o problema, conclamando gestores, entidades médicas e de saúde, além de representantes do Executivo, Judiciário e Legislativo, a uma intervenção firme de combate à desinformação. 

A própria ABN, durante todo o ano, realiza inúmeras iniciativas de esclarecimento à população. Também mantém um canal permanente, Mitos e Verdades em Neurologia, para elucidar dúvidas de forma ética e concisa (mitoseverdades@abneuro.org.br) a médicos e pacientes, conforme informa Adalberto Studart Neto (SP), membro titular da Academia e secretário do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento (DCNCE).

Relatos não são comprovação

Recentemente, multiplicaram-se notícias infundadas sobre o caso de um senhor de 78 anos que teria a enfermidade estabilizada e seus sintomas supostamente revertidos com “melhoras no humor, sono e memória” após o início de um tratamento experimental com extrato composto por THC (Tetrahidrocanabinol) e CBD (Canabidiol). O caso foi publicado em uma revista médica (Ruver-Martins et al. Journal of Medical Case Reports (2022) 16:277).

Embora tenham o papel de documentar situações de interesse científico, os relatos de caso não permitem tirar conclusões sobre a eficácia ou não de tratamentos, sendo os ensaios clínicos controlados com placebo o meio mais adequado para isso.

De outra forma, os resultados podem ser obtidos por mero acaso e pode haver efeitos colaterais não documentados. É necessário salientar ainda que o uso de canabinóides para o tratamento de condições neurológicas é atualmente alvo de intensa pesquisa, com resultados não uniformes até o momento.

No artigo de posicionamento publicado pela Academia no periódico científico Arquivos de Neuropsiquiatria (Brucki SMD et al.Canabinoids in Neurology. Arq. Neuro-Psiquiatr. 79 (04) • Apr 2021), um painel de especialistas constatou que até o momento não há evidência científica que corrobore o uso do THC ou do CBD para o tratamento dos sintomas cognitivos ou neuropsiquiátricos do Alzheimer, tampouco para sua reversão ou estabilização da doença, que apresenta evolução progressiva. Médicos aguardam o avanço das pesquisas para orientar o uso do canabidiol com segurança.

O Consenso Brasileiro de Demências, que sintetiza as recomendações de tratamento da doença de Alzheimer serve como um guia a todos os profissionais de saúde que lidam com a doença, é gratuito e está disponível no site da ABN: scielo.br/j/dn/i/2022.v16n3suppl1/. Nele, especialistas apresentam os remédios que podem ser utilizados em cada fase da doença que estão comprovados cientificamente e os tratamentos não farmacológicos, como atividade física, fonoaudiologia, musicoterapia, terapia de reabilitação com psicólogo ou terapeuta ocupacional.

Entendendo a enfermidade

“A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, que eventualmente causa a morte de neurônios. Hoje, sabe-se que a doença é caracterizada pelo acúmulo de duas proteínas principais, o o peptídeo beta-amilóide e a proteína tau fosforilada. O acúmulo dessas proteínas é tóxico para o cérebro e esse depósito no cérebro ocorre de dez a vinte anos antes do aparecimento dos sintomas. Com a morte neuronal, há um acometimento gradual das funções cognitivas, aquelas intelectuais, responsáveis pela memória, pela atenção, pelo raciocínio. Idosos a partir de 65 anos são os principais afetados, mas adultos antes dos 65 anos também podem ser doença de Alzheimer”, explica Raphael Ribeiro Spera, médico-assistente da Divisão de Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMSUP) e membro titular da ABN.

A dificuldade para se lembrar de fatos ocorridos há pouco tempo é um dos sintomas usuais da doença. Segundo o dr. Raphael, nesse momento as famílias começam a perceber que o paciente está bastante repetitivo. “Ele pode dar um ‘bom dia’ várias vezes ou voltar sempre ao mesmo assunto. A pessoa se perde dentro do próprio discurso.” Há outros tipos de sintomas: desatenção, falta de concentração, troca de sílabas, dificuldade para encontrar palavras e para se localizar geograficamente. “Não são raras às vezes em que os portadores de Alzheimer chegam a se perder na rua.”

“Muitas famílias negligenciam os sinais dados pela enfermidade, acham que é normal. O que recomendamos é que o indivíduo seja acompanhado ao médico, de preferência ao neurologista, afinal, quanto mais cedo for feita a avaliação, melhor. Aplicamos testes que analisam memória, atenção, raciocínio, e quando alguma alteração é constatada, requisitamos uma série de exames essenciais, como o de sangue, tomografia ou ressonância. Se necessário, até mesmo exames mais complexos”, explica.

Quanto à prevenção, o neurologista esclarece que não há uma fórmula mágica para evitar a enfermidade. Nada, por exemplo, como a informação falsa que circulou nas redes sociais e em aplicativos de mensagens, em agosto do ano passado, indicando que “fazer exercícios com a língua é eficaz para reduzir o aparecimento da doença de Alzheimer”.

Movimentar regularmente o corpo e o cérebro – seja com leituras, palavras cruzadas, sudoku, instrumentos musicais, novos idiomas, quebra-cabeça, xadrez ou qualquer sorte de atividade que exerça estímulos cognitivos -, sim, é um dos hábitos que podem auxiliar na prevenção da doença. Também convém manter uma dieta balanceada, a exemplo da mediterrânea, rica em frutas, vegetais, leguminosas e peixes, e pobre em carnes vermelhas, açúcar refinado e gorduras saturadas.

 Novidades

Tratamentos de ponta têm sido desenvolvidos a partir de diversas pesquisas científicas. Elas são apresentadas em consagrados encontros de especialidade, como a Alzheimer's Association International Conference, que aconteceu entre o fim de julho e o início de agosto de 2023, na Holanda. Lá foram exibidos os resultados do estudo do Donanemab, uma droga modificadora que pretende desacelerar a evolução da doença.

“No entanto”, pondera o dr. Raphael, “estamos falando de produtos caros, que ainda precisam ser importados e sequer foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Para a maior parte da população, o que está disponível são medicamentos sintomáticos que ajudam a desacelerar a progressão dos sintomas. Surgiram nas décadas de 1990 e 2000, são usados amplamente, aprovados pela Anvisa e disponibilizados pelo SUS”.

 

 

 

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